Como as Guardas Civis estão virando tropas de elite militares



Mãos na parede chapiscada, olhos para o chão, pernas abertas num quase espacate. O jovem rapaz tremia quando ouviu o som metálico da pistola 380 sendo engatilhada. Na estreita viela formada por casas que de tão grudadas parecem caoticamente geminadas, o silêncio tenso amplificou o barulho que antecipa o primeiro disparo.

“Ouviu, né? Se correr vai tomar tiro”, disse o homem, uniforme azul, colete a prova de balas e uma intimidadora boina ornada com uma caveira.

O menino, então, chorou. Pediu perdão aos guardas por ter fugido ao encontrá-los de repente nos pequenos corredores dessa comunidade de casinhas simples em Osasco, na Grande São Paulo. “Sou ajudante de pedreiro, não mexo com droga, senhor”, repetia ele, quase aos soluços. Um segundo homem aproximou-se do adolescente de 17 anos, segurou sua camisa com força na altura da nuca, e avisou. “Fica na sua pra não ficar ruim pra você”. Com a boca já quase encostada no ouvido do rapaz, lembrou de uma dessas regras que nunca se quebram: “Homem não chora”.




A cena, tão comum no cotidiano de incontáveis favelas brasileiras, não foi protagonizada por policiais militares, quase sempre os responsáveis por abordar traficantes em áreas potencialmente perigosas nas grandes cidades do País. Naquela manhã ensolarada e especialmente quente do início de agosto, os responsáveis por invadir a íngreme comunidade conhecida como “inferninho” eram homens da Guarda Municipal de Osasco.

Treinados pela ROTA, a violenta tropa de elite da PM paulista, desde o início desse ano eles têm como missão atuar exatamente em regiões e em ações que até pouco tempo eram de responsabilidade exclusiva da Polícia Militar. Abandonaram as típicas rondas escolares, o patrulhamento comunitário e as guardas patrimoniais. Agora caçam bandidos e traficantes pela cidade da Grande São Paulo e passaram a adotar um estilo cada vez mais próximo de seus colegas militares.
Circulam pela cidade com escopetas calibre 12, viaturas de grande porte que se parecem com as usadas pelas tropas táticas da PM e ostentam no uniforme a tal boina adornada com uma caveira e um braçal no ombro direito no qual se lê em letras grandes a sigla ROMU: Rondas Ostensivas Municipais. “Somos a Rota da GCM, estamos na linha de frente contra o crime”, me conta um dos guardas, orgulhoso por sua nova função.
Osasco foi a última cidade da Grande São Paulo a criar uma tropa de elite para sua Guarda Civil Municipal. Segue uma tendência que vem se espalhando por todo o país de forma acelerada. Prefeituras de um crescente número de cidades em diferentes regiões vêm investindo quantias consideráveis de recursos na criação de tropas especializadas, bem armadas e com treinamento quase militar para oferecer a seus cidadãos uma alternativa ao combate à crescente criminalidade. “Esse não é um movimento exatamente novo, mas que estamos vendo se espalhar e se acentuar com bastante frequência pelo país em meio a essa onda de militarização que ganhou força nos últimos anos no País e que culminou, de certa forma, com a eleição do presidente Jair Bolsonaro”, diz a pesquisadora Juliana Martins, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Fonte:YAHOO!